entre nós
Margarida Dias e Eduardo Veloso
É a segunda vez que a fotografia os reúne (a primeira foi no curso de fotografia do ARCO, em 1983-89, onde aliás mais tarde foram os dois professores). Mas, tirando isso, que mais poderemos descobrir de comum nas imagens que aqui nos propõem? À primeira vista, pouco ou quase nada. A não ser que falemos de outras coisas, quase sempre invisíveis aos olhos (e que, como alguém dizia, são as essenciais): a mesma cumplicidade com a natureza, o mesmo despojamento do supérfluo, do decorativo, do efeito fácil. De resto, nas fotografias desta exposição, é como se deparássemos com dois olhares diferentes, duas maneiras bem diferentes de ver (ou de mostrar) as coisas. Nas do Eduardo transparece o gosto pelas grandes pânorâmicas, o recurso quase automático aos cânones clássicos da perspectiva, das figuras definidas, do ponto de fuga. Em quase todas as fotografias que aqui estão, a profundidade de campo é explorada em todas as suas potencialidades e cada imagem surge-nos como uma encenação gigantesca em que cada plano fosse uma nova cortina, sempre mais afastada, mas sem nunca se esfumar. Nas fotografias da Margarida, pelo contrário, o que domina é o gosto pelo pormenor, pelo fraccionamento da chamada realidade. E também a linguagem é muito diferente: fica, no caso dela, a dever mais a um universo subjectivo, expressionista, de impressões, de fragmentações. As linhas perdem nitidez, os contornos esfumam-se, criando verdadeiras composições de luz e sombra, muitas vezes quase abstractas. É claro que a realidade, se tal coisa existisse, seria aqui muito diferente do mundo das fotografias do Eduardo. Reinaria aqui já não o mundo solar de Apolo, como alguém me sugeriu, mas as sombras, os mistérios, a magia dos domínios de Dionísio.
Paradoxalmente, é nesta divergência que encontro a unidade profunda desta exposição: tal como sempre acontece, no nosso olhar sobre as coisas que realmente importam, são precisos dois olhares para ver bem – do direito e do avesso, por dentro e por fora, de longe e de perto, de noite e de dia. E daí também a exacta concisão do título (muito bem escolhido, diga-se!) da exposição: entre nós, porque é realmente um olhar partilhado, mais do que dois olhares distantes.
Eduardo Veloso e Margarida Dias, tão aqui
José Lima
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